HENRI CARTIER-BRESSON“Clic!” Este simples barulho tem o poder de congelar e gravar para sempre um movimento, uma paisagem, uma cena, o rosto da pessoa querida. O francês Henri Cartier-Bresson, que está completando 95 anos de idade, é um grande mestre do ofício de congelar momentos especiais. Seria ele um artista ou um fotojornalista. Sua preferência é pela pintura e pelo desenho e é sabido que ele imprime um toque artístico em suas fotos. Mas é inegável que, com essas mesmas obras de arte, ele documentou grandes acontecimentos ao redor do mundo e teve seus trabalhos divulgados em revistas e jornais, através da Agência Magnum.
Muitas dessas fantásticas fotografias integram uma exposição que está acontecendo em homenagem a ele, na Biblioteca Nacional da França, em Paris. Uma fundação que leva seu nome está sendo criada pela fotógrafa Martine Franck, com quem ele é casado há 35 anos, e por sua filha Melanie. A fundação, sediada em Paris, será dedicada à divulgação e promoção da fotografia e ficará responsável pelo acervo do mestre francês, nascido em 22 de agosto de 1908.
O gosto pelas artes surgiu em seus tempos de colégio, quando realizava seus estudos em duas tradicionais escolas parisienses. Sua família, dona de uma grande fábrica de tecidos, queria preparar o jovem Henri para assumir os negócios, mas desistiu ao ver que ele se aprofundava no estudo da pintura. Nos anos 20, ele freqüentou os ateliês dos surrealistas Contenet e André Lhote, antes de se formar em Pintura e Filosofia pela Universidade de Cambridge, na Inglaterra.
Ele já tinha um certo apreço pela fotografia, mas decidiu-se por entrar no ramo em 1931, após se admirar com um retrato de três meninos africanos, que aparecem brincando em um lago no Congo. A foto de Martin Munkacsi, publicada em uma revista, impressionou-o sobretudo pela beleza plástica e por algumas características comuns aos movimentos artísticos que vigoravam na época. Foi o que inspirou a seguir uma expedição de pesquisas no México e ali fazer as suas primeiras fotografias.
Em 1932, faz a sua primeira exposição, ao mesmo tempo em que começa a colaborar para publicações francesas. Seus primeiros trabalhos, apesar de integrar matérias jornalísticas sobre as crises sociais que se agravavam no período entreguerras, eram vistos como trabalhos artísticos, visto que Cartier-Bresson aplicava um tratamento diferente às fotografias. Elas enfocavam de perto os personagens e seus dramas, sem cair no uso de poses e artifícios. Nem tampouco fazia focos muito crus das situações, humanizando os temas. Esse jeito de fotografar inovou o foto-jornalismo e teve seguidores, como o brasileiro Sebastião Salgado, de quem o próprio Henri é admirador.
Três anos depois, passa a trabalhar com cinema, chegando a integrar a equipe de Jean Renoir, autor do clássico A regra do jogo. Isso o levou a rodar Vitória da vida, um documentário sobre a rotina dos hospitais espanhóis durante a guerra civil que arrasou o país entre 1936 e 1939. Com o estouro da Segunda Guerra Mundial, Cartier-Bresson é preso pelo exército alemão e levado para uma cadeia em Baden-Württemberg, de onde fugiu em 1943, após três anos no cárcere. Ao voltar a Paris, entra para a Resistência Francesa e participa de ações de sabotagem contra os nazistas, ao mesmo tempo em que volta a fotografar momentos do conflito, como a situação dos prisioneiros de guerra e as batalhas que expulsaram os alemães de Paris.
Com o fim da guerra, Henri produz outro documentário: O retorno, que mostra a volta dos prisioneiros e soldados para suas casas. Em 1947, junta-se a colegas de profissão como Robert Capa, David Seymour e George Rodger, e funda a Agência Magnum. Através dela, ele esteve presente em mais de 40 países, realizando coberturas marcantes. Em 1948, fez o último retrato do líder indiano Mahatma Gandhi, momentos antes dele ser assassinado por um fanático hindu. Na mesma época, registrou os lances da Revolução Comunista Chinesa e, seis anos depois, foi o primeiro fotógrafo ocidental a ser liberado para entrar na União Soviética.
Nem só de grandes coberturas vivia o mestre da fotografia. São famosos seus registros de artistas como Henri Matisse, o fundador do fauvismo, e Francis Bacon. Igualmente fantásticos são as fotos de paisagens, como as da litigiosa região da Caxemira, e flagrantes de rua, como o simpático garotinho que caminha sorridente pela “Cidade Luz” carregando duas garrafas de vinho. As fotos de Cartier-Bresson corriam mundo e ganhavam fama por sua genialidade, mas ele próprio criticava alguns de seus trabalhos.
Conta-se que nos anos 60, ele tentou destruir suas fotos e negativos, sendo impedido por dois editores da Magnum, que decidiram escolher seus melhores trabalhos e publicassem em um dos inúmeros livros inscritos sobre ele. Esse acesso inesperado é atribuído ao seu temperamento difícil e perfeccionista, assim como o fato de ele não gostar de ser fotografado e nem de dar entrevistas. E nem precisa muito: conforme ele disse certa vez, seus mais de mil trabalhos falam pelo seu autor.
Henri Cartier-Bresson sai da Magnum em 1966 e volta a trabalhar como free-lancer, mas deixa que a agência continue vendendo suas fotos. Em 1974, ele aposenta sua velha companheira: a pequena câmera Leica de 35mm, que por ser leve e rápida, dinamizou o fotojornalismo e tornou-se popular através dos trabalhos do mestre. A partir dessa pausa, ele volta a se dedicar ao desenho e à pintura, suas primeiras grandes paixões. Mas os amigos e fãs acreditam que ele, apesar de estar satisfeito com esse novo rumo, esteja fotografando em algumas raras ocasiões.
Ocasiões como a vitória de François Miterrand nas eleições francesas de maio de 1981, quando foi flagrado pelo fotógrafo brasileiro Roberto Delduque em frente à sede do Partido Socialista. O velho repórter da Magnum estava lá, com a sua (agora, não adianta negar) inseparável Leica, mas percebeu tudo e saiu de mansinho, pois se sentiu incomodado. O rápido momento fez a alegria de Delduque, então correspondente na França Como bom fotógrafo, ele nada mais fez que colocar em prática uma lição do seu mestre: “Fotografar é colocar na mesma linha de mira, a cabeça, o olho e o coração”. Depois disso, é só fazer aquele pequeno barulho. “Clic!”.
Gabriel Damásio
UFS - São Cristóvão/SEFontes de apoio: Banco da Imagem, Globonews, Agência Estado e site Ponto de Vista.
Também foi consultado o site da fotógrafa e documentalista gaúcha Nádia Raupp Meucci (www.fotonadia.art.br), a quem agradecemos.