UMA RECORDAÇÃO DE JAGUARÃO
Em 1951 minha família fixou residência em Jaguarão, quando eu tinha apenas 10 anos de idade e lá permanecemos até 1954. Nesse período moramos em três casas, duas delas na rua Júlio de Castilhos que começa na beira do rio Jaguarão e se estendia, na época, por mais de dez quarteirões até o sopé do cerro da Pólvora. Na encosta do cerro, dominando a cidade, uma edificação em ruínas, hoje identificada como uma antiga Enfermaria Militar diziam que teria sido um quartel dos farroupilhas, onde estivera Bento Gonçalves. Meu pai, um funcionário da Alfândega, nas horas vagas escrevia crônicas para o semanário A Folha e certa vez foi convidado a discursar numa cerimônia cívica no Largo da Bandeira, entre a praça dr. Alcides Marques e a matriz do Divino Espírito Santo. Nessa igreja fiz a minha primeira comunhão com uns trinta adolescentes, e ainda lembro os acordes do hino pontífício tocando nos alto-falantes do templo enquanto entrávamos em cortejo de vela na mão e em trajes semelhantes aos de noivos em casamento. Mas foi na outra igreja da Imaculada Conceição, com uma só torre, bem alta, que me aproximei mais da religião. Na época era uma capela particular de dona Minervina Carolina Correia, uma octogenária muito venerada na cidade e que assistia as missas numa cadeira própria instalada em lugar destacado do templo. Residia ao lado da igreja e seu nome também fora emprestado ao estádio de futebol, onde três clubes da primeira divisão de amadores do Rio Grande do Sul disputavam títulos, o Cruzeiro, o Jaguarão e o Navegantes. Como muita gente, comprávamos pão no Uruguai, cabendo a mim atravessar dia sim, dia não, a ponte internacional Mauá com essa missão, às vezes enfrentando nevoeiro e o vento minuano frio e tão forte, que parecia querer me lançar nas águas do rio, inflando insistentemente minha capa de lã provida de capuz. Na aduana uruguaia, era obrigado a exibir meu atestado de vacinação contra a varíola. O vento minuano nunca mais o senti como em Jaguarão, nos meses de inverno. Assobiava nas portas e janelas e esvaziava as ruas da cidade. Saindo pelas manhãs, eu me defendia dele apressando o passo nas esquinas em que soprava encanado. Eu ainda fugia das sombras das casas para preferir os trechos ensolarados, tiritando de frio. O rio Jaguarão merece atenção especial. Na época, nunca nos aventuramos a conhecê-lo melhor, a não ser em raras pescarias de fim-de-semana na margem uruguaia, que por ser uma várzea, apresentava igarapés piscosos. Só hoje percebo que sua importância para o sistema hídrico da lagoa Mirim equivale à do rio Jacuí para a outra grande lagoa que domina o mapa do Rio Grande do Sul, a lagoa dos Patos. Nunca visitei a lagoa Mirim, apesar de ligada por linha de ônibus à vizinha cidade uruguaia de Rio Branco. A praia fluvial freqüentada pelos jaguarenses nos meses de verão também ficava no lado do país vizinho pois a margem brasileira, a partir da ponte, era forrada por um sólido cais, uma parte do qual constituía o porto da cidade. Dali partia a chata Caí, embarcação de carga que fazia regularmente a navegação entre Jaguarão e o porto de Pelotas, portanto, a singrar o curso final do rio, atravessando a lagoa Mirim e, presumidamente, percorrendo toda a extensão do sangradouro São Gonçalo. Eu costumava muito ir ao cinema da vizinha Rio Branco nos domingos porque o preço era menor e os programas eram duplos, isto é, com duas "películas". Às vezes saía assombrado do cinema porque os filmes eram trágicos, com cenas de crimes brutais, e não havia o controle de idade para os espectadores como no Brasil. Mas ir ao amplo cine-teatro Esperança, em Jaguarão, era um acontecimento social pelo desfile de elegância das famílias e casais como fecho e ponto alto de cada semana. Em seu palco tive a honra de participar de peça teatral encenada com alunos da escola primária que eu cursava, o Grupo Escolar Joaquim Caetano da Silva. Aliás, a vida social na cidade era muito prestigiosa, embora não frequentássemos os salões dos clubes Harmonia, Jaguarense, Caixeiral, nem 24 de agosto. Ao lado disso, a simplicidade dos costumes podia ser avaliada pelo hábito dos homens mais velhos de sair na calçada pela manhã vestindo pijama de pelúcia com a garrafa térmica debaixo do braço e a cuia de chimarrão. A única emissora de rádio local, rádio Cultura, ZYU-7, vangloriava-se com o "slogan" de "a mais meridional do Brasil", condição que perdeu logo depois que saí de Jaguarão, com a inauguração de congêneres em Santa Vitória do Palmar ou Chuí. Dirigida pelo radialista Amadeu Azevedo, funcionava como meio de comunicação com a região, numa época de raras linhas telefônicas, mediante repetidos alô, alô fazenda tal, município tal, senhor fulano de tal, seus filhos mandam-lhe a seguinte mensagem etc. A emissora tinha programa de calouros infantís, dos quais tive a honra de participar, transmitia jogos de futebol e até julgamentos da justiça criminal. Atendia também o público uruguaio aceitando suas dedicatórias e mantendo uma parte da discoteca a seu gosto. Jaguarão, como Rio Branco, era uma cidade bilingüe. Para ser admitido como empregado no comércio era imprescindível falar correntemente português e espanhol. Mas não dava para sentir nenhuma predominância de uma sociedade sobre a outra. No meu grupo escolar mesmo, havia uma professora brasileira casada com o redator do jornal da cidade uruguaia e ambos eram patriotas ardentes de seus respectivos países. Sentinela avançada da brasilidade, Jaguarão se engalanava no 7 de setembro com desfile militar, escolar e os cavaleiros do Centro de Tradições Gaúchas Rincão da Fronteira, que carregavam orgulhosos, o auri-verde pendão, então comandados por Santos, o Tropeiro. Cidade pastoril, vivia das exposições-feiras de gado, tinha um hipódromo com intensa programação e uma charqueada. Esta última tive oportunidade de visitar partindo demanhã cedo num Ford de bigode de um colega do meu pai. Meus olhos de guri ficaram impressionados com as duras cenas da matança de reses conduzidas ao longo de um cercado, ao fim do qual recebiam a punhalada no pescoço e tombavam com os olhos vidrados numa prancha sobre trilhos. Levantada a porteira, a rês era empurrada até um salão de um galpão onde os carneadores a abriam no chão e dela retiravam, com impressionante rapidez, as víceras logo arrastadas fumegando em meio à friagem reinante. Pouco depois, sua carne em forma de imensa manta estava salgada e superposta em pilhas de mais de três metros de altura. Lá fora, muitas traves esperavam as mantas de carne para o processo de secagem ao sol. Apesar dos seus 13.000 habitantes, a cidade tinha ares de metrópole. O centro, à noite, ostentava o "glamour" das conversas políticas no Café do Comércio, dos jantares no restaurante Gruta Jaguarense e da chegada dos ônibus na rodoviária que era um prédio simples, pelas poucas linhas que levavam a Pelotas e Porto Alegre. O comércio era procurado não só pela população da cidade mas do Uruguai e do interior. Lembro-me quando apareceram os primeiros fogões a gás, televisor e o refrigerador a querosene. As grandes compras, porém, eram feitas nos magazines de Porto Alegre e Montevidéu, estes com atraentes catálogos fartamente ilustrados e com preços declarados espontaneamente. De indústrias, o que lembro era da fábrica de fumos (empacotados para uso em cigarros preparados manualmente na hora de usar), a engarrafadora de refrigerantes, a cooperativa orizícola, a torrefadora de café e o cortume. O traçado da cidade era uma trama perfeita de duas dezenas de ruas, as principais, arborizadas e bem iluminadas. Dava para notar que à medida que se aproximavam do rio, essas ruas se estreitavam o que indicava que houve uma fase antiga e outra já orientada para o uso do automóvel. Em dias de temporal, o rio invadia a cidade uns cinqüenta metros adentro e, antes da ponte, triplicava de largura, invadindo o descampado. Mas era um rio de bom caudal, que nunca mostrava seu leito. O casario de Jaguarão era contínuo,ligado parede com parede, erigido com argamassa à base de cal, telhas tipo canal, e muito me admiro que relatos e fotos recentes registrem que não mudou muito, meio século depois. Também estranho o pouco que se fala da cidade em relação às outras da fronteira gaúcha. Dias antes de partir de lá, todos os alunos do Ginásio Estadual onde eu estudava foram convidados a participar de uma festa campeira numa fazenda dos arredores cidade, onde muitas das minhas belas colegas apareceram vestidas de prendas e aquele cenário de canções e tradições regionais parecia, ou, por feliz coincidência, não deixava de ser, só para mim, uma doce e inesquecível despedida!
Vilmar José Silveira de Lima
SQN 307 bl. A apart. 204
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