REAÇÃO PELAS NOSSAS RAÍZES
Alexandre Garcia
O Prefeito de Bombinhas, Santa Catarina, acaba de enviar um projeto à Câmara de Vereadores, que poderá destruir uma das mais lindas praias do litoral brasileiro. O projeto reduz para apenas 100 metros de distância do mar a área de preservação permanente. A conseqüência é a abertura de espaço para a especulação imobiliária. Lá estão remanescentes da Mata Atlântica que fazem equilíbrio ecológico com a Reserva Biológica Marinha do Arvoredo. Assim, não apenas do que está sobre a terra está em perigo com esse projeto, mas também o ecossistema marinho. Em São Sebastião, São Paulo, um projeto semelhante, que aumentava o gabarito dos prédios, foi derrubado na Câmara depois da mobilização da sociedade, não apenas local, mas do país inteiro. Porque esses atentados contra a natureza não dizem respeito apenas ao município envolvido, mas ao país inteiro. Mesmo que a Prefeita de Florianópolis declare que eu não tenho que me meter em coisas assim, como ela já fez, aqui estou de volta, a serviço da preservação do nosso patrimônio, de nossa história, que vale muito mais que as palavras passageiras de políticos. A reação dela é igual à nossa, quando ficamos irritados com estrangeiros que nos advertem por não estarmos preservando a Amazônia. E eles têm razão. Nós somos maus guardiões da Amazônia, e ainda ficamos dando ouvidos a fantásticas histórias de complôs de internacionalização da Amazônia. Em vez de inventarmos essas histórias de carochinha, deveríamos assumir nossa responsabilidade perante a Humanidade. Outros países já experimentaram o desastre que é a edificação de caixotes de concreto na orla marítima. Torremolinos, na Espanha, era uma cidadezinha de pescadores há menos de trinta anos. Hoje, é um amontodado feio de prédios, com trânsito engarrafado e natureza agredida. Como ela, dezenas de pequenas cidades na costa espanhola do Mediterrâneo foram convertidas em infernais centros de sujeira e barulho nas férias de verão. Os edifícios esconderam as falésias, as enseadas; sumiram com as árvores e os pássaros. Mudaram o clima e o calor fica insuportável em julho e agosto. Na Itália, 32 cidades se uniram para resistir. Se organizaram no Cittaslow ("cidade lenta", em contraposição ao ''fast'' que vai contaminando tudo, da comida ao sexo). As cidades que aderiram ao movimento reacionário (no bom sentido) se comprometem a preservar o meio ambiente, melhorar a qualidade de vida, usar alimentos da região, promover os produtos locais e a hospitalidade e acabar com o ritmo frenético que neurotiza o homem urbano. Aqui no Brasil, tantas cidades estão precisando disso! O exemplo de São Sebastião pode ser aplicado em Bombinhas, com a mobilização da sociedade(azimbro@mdi.com.br) e se multiplicar por tantas cidades do Brasil, que estão perdendo suas caraterísticas, afogadas pela falta de planejamento ou por um desenvolvimento irracional. Ninguém deve ser condenado a não progredir. A Viena dos imperadores ficou intacta de um lado do Danúbio. Do outro, está a Viena moderníssima, como se fosse de outro planeta. Preservar a beleza de nossas cidades é como preservar nossas raízes. Será que vamos ter que atravessar o Atlântico para ver cidades lindas, quando ainda as temos do lado de cá do oceano? Ainda há tempo. Se não nos mobilizarmos agora, elas só vão restar nas fotografias.
Diário do Grande ABC - São Paulo
15 agosto 2000