SÃO SEBASTIÃO, ROGAI POR NÓS.
Alexandre Garcia

O DIÁRIO , Maringá, 12 outubro 1999.


Porto Alegre/RS - março de 2000
Foto posterizada de Nádia Raupp Meucci


Nunca estive em São Sebastião. Mas sei que ela é uma cidade histórica à beira-mar, a 200 quilômetros de São Paulo. Tem menos de 50 mil habitantes, vive da agricultura, da pesca e, principalmente do turismo, que fez encher a cidade de ousadas. Sua igreja é de 1610 e imagino, não tem edifícios. Hoje, São Sebastião é palco de uma batalha: crescer ou não crescer para o alto.
Uma ONG chamada Fundação Linha Verde é contra os edifícios e está mobilizando a população. O Secretário Municipal do Turismo apóia. O Secretário Estadual do Turismo foi lá e apoiou também: nada de arranha-céus. Que bom se a reação de São Sebastião contra os espigões se espalhasse como uma bênção sobre as cidades brasileiras!
O pesquisador da Universidade de São Paulo, Ícaro Cunha, é contra esse vôo para os céus. Ele diz que edifícios iriam interferir no micro-clima. Imagino calçadas sem sol e o concreto absorvendo calor. Que a malha viária ficaria saturada. Pessoas se empilhando em prédios têm carros que não podem ser empilhados e ocupariam os espaços disponíveis, parados ou rodando. Que os edifícios prejudicariam a ventilação. Nem mesmo o ar marinho, ou da Serra do Mar, seria livre, por causa dos caixotes de concreto com pessoas presas. Os esgotos não escoariam tanta porcaria descendo de todos os andares para um ponto único. Não haveria água suficiente e os fios de energia elétrica ficariam sobrecarregados.
Um inferno! Ainda mais: pelo que diz o professor de Harvard, Edgard Glaaser, quanto mais se oferece espaço nas cidades, mais se atrai migrantes. Veja-se como exemplo as doações de lotes em Brasília. Construir prédios aumentará a oferta de apartamentos e virá a superpopulação, com o desemprego, a criminalidade e a queda na qualidade de vida. Em julho, no litoral mediterrâneo espanhol, vi balneários que há 30 anos eram pitorescas aldeias de pescadores. Hoje, são um amontoado de espigões, com a população multiplicada cem vezes. No verão, se convertem num congestionamento só. Quem vai para lá passar as férias vive num estresse igual ao de uma grande cidade. Mas o pior que os edifícios vão provocar a morte das casas. O ex-presidente José Sarney, escreveu na ''Folha de São Paulo'' sobre Recife: ''A cidade está verticalizada e os destroços de algumas resistentes moradas parecem mulheres de braços quebrados, cabelos desgrenhados, testemunhos da crueldade que passou; mataram as casas, com requintes de atrocidade. Fico a pensar na doença terrível que assola as cidades. É a explosão demográfica, a violência urbana, a dificuldade de locomoção. Tudo isto mata velhas casas, levanta gigantes verticais, que multiplicam o número de moradores por metro quadrado.''
Em toda a minha vida, morei menos de um ano em apartamento, nunca em prédio de mais de três andares. Depender de elevador, fiar empilhado, me parece coisa de hotel, onde se mora provisoriamente. Ms foi moda, nas cidades do interior, achar que a chegada do edifício era sinônimo de progresso. As pessoas trocaram suas casas amplas, ensolaradas, ajardinadas, de seus quintais, seus pássaros, e tiraram os pés de seu planeta terra, empilhando-se em edifícios. Em geral caixotes feios, regulares, iguais, como se nunca houvesse arquitetos neste país.
Ave São Sebastião. Jogai vossas bênçãos sobre todas as cidades brasileiras. E rogai por nós que queremos preservar as cidades, de corpo e alma.

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